terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poesia de Carlos pena Filho

CHOPP


Carlos Pena Filho
Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Uns dos mais importantes poemas líricos de Gonçalves Dias

Olhos verdes

São uns olhos verdes, verdes,
uns olhos de verde - mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos porque morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
........................................
Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma - vida, outra - morte;
uma - loucura, outra - amor.
Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mais ai de mi
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
..........................................
Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mais aide mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esperança,
Davam amor sem amar!
Disei-o vós, meus amigos,
Que ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

Poema:

Soneto

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...

Negros olhos as palpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!


Álvares de Azevedo 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Soneto:

Desculpas

Cabisbaixo e humilde venho agora
Te pedir mil desculpas, pois eu sei,
Que palavras que eu falei outrora
Foram causas da dor que te causei.

Impensadas palavras te atirei,
Te fiz vítima, em seguida fui embora,
Mas agora parei, senti, pensei
E já vejo que é esta a melhor hora

De dizer que foi tudo minha culpa,
Meu orgulho maldito te feriu
E desmancho meu peito em desculpa

Pois a mente tão lerda não pensou,
Nem tampouco o meu coração sentiu
O que a boca idiota te falou.

Genildo Santana

Soneto: (amor aos pais)

Privilégio

Eu só queria ter o privilégio
De pegar meu velho pela sua mão
Eu inda bem moço, ele um ancião,
Pra mim não teria momento mais régio.

Quem assim não faz um sacrilégio,
É crime tão grande que não tem perdão,
É a um grande SIM responder com NÃO
É até indigno de um sortilégio.

Pegar velhas mãos quejá me pegaram,
Afagar os braços que já me afagaram
Dar banho em quem já deu banho em mim,

O mundo covarde isto a mim negou,
Erguer d'uma queda quem me levantou
Não quis esta vida que eu fizesse assim.

Genildo Santana

Soneto:

O passarinho

Um passarinho pousou
Por sobre a minha janela
E, ao pousar, entoou
Uma canção muito bela.

Magnífica aquarela
Que a mim contagiou
De uma alegria singela
O meu peito transbordou.

Depois de soltar seu grito
Voou para o infinito
Subindo atrás de um jardim

Foi tão bela a melodia
Que eu pensei que ele trazia
O teu recado para mim.

Genildo Santana

Soneto:

Mulher de todo mundo

A mulher que eu tanto quis
Do fundo do coração,
Viver com ela feliz
Sem porquê, sem precisão,

Resolveu ser meretriz,
Vender amor de ilusão,
Se tornando embaixatriz
Do país da sedução.

Seu pecado se estende,
Por prazer ela se vende
A quem mais dinheiro der...

Neste abismo tão imundo
Foi mulher de todo mundo,
Só não foi minha mulher.

Genildo Santana